PAULO
FREIRE DIGITAL
Interação,
comunidade, informalidade
No encontro que começa a acontecer entre educação e tecnologia
na sociedade contemporânea, há três desafios considerados prioritários. Podemos resumir esses desafios em três conceitos:
interação, comunidade, informalidade.
A interatividade é uma idéia relativamente
generalizada, mas que em poucas situações ocorre de fato. Para muitos especialistas, o e-mail continua como a killer app (a
aplicação matadora), uma ferramenta já antiga mas que serve às principais exigências da comunicação. A forma é nova, mas a
prática é tão antiga quanto trocar cartas. Além do mundo do e-mail, técnicos e críticos continuam em busca de um ambiente,
de um instrumento, de uma tecnologia que faça justiça às promessas de interatividade trazidas pela Internet.
Será a televisão algum dia mais
interativa, além do processo banal que vemos em programas do tipo Você Decide ou escolha o filme da próxima semana? Qual o
sentido das inúmeras possibilidades de personalização de sites, jornais e outros serviços de informação? Até que ponto essas
ferramentas de marketing, instrumentos de rastreamento de preferências, como no Ibope que serve de guia para um apresentador
de TV prolongar ou retardar uma atração que esta sendo apresentada ao vivo?
A idéia de comunidade resume outro
dos desafios. Aliás, a Internet começou como uma comunidade de pesquisadores trocando informações sobre projetos numa rede
de universidades norte-americanas, patrocinada pelo establishment militar interessado na aceleração e na segurança desses
projetos. Experiências como o Well (poço) também fizeram muito sucesso, antecipando a generalização posterior das salas de
bate-papo.
Mais recentemente, a engenharia
de comunidades tornou-se também uma espécie de Meca dos desenvolvedores de websites e projetos educacionais na Internet. Instrumento
de marketing, a formação de comunidades não passaria, desse ponto de vista, de uma forma sofisticada de serviço de atendimento
a clientes ou a fornecedores.
Finalmente, a informalidade tem
sido valorizada, novamente um conceito antigo (nada mais informal que um grupo de adolescentes metido numa garagem criando
uma empresa de alta tecnologia em algum lugar da Califórnia) que boa parte dos estrategistas da nova economia tecnológica
adoraria transformar numa arma de competição por mercados e consumidores. Nos debates, pesquisas e publicações dos últimos
anos, esse desafio tem sido associado à noção de conhecimento tácito ou seja, à possibilidade de capturar novas idéias, sentimentos,
anseios que não estão explícitos, codificados, registrados e devidamente mensurados.
Educação e liberdade
Esses três desafios, presentes no
mundo da alta tecnologia de informação e comunicação, tornam-se ainda mais urgentes quando se trata de educação, em especial
de educação a distância.
Qual escola, qual website voltado
à educação não gostaria de promover formas de conexão mais interativas, propícias à transformação dos clientes, alunos, pais
de alunos, numa comunidade capaz de criar uma experiência muito mais rica do que a mera transmissão formal de conhecimento?
É nesse momento que as idéias de
Paulo Freire tornam-se atuais, pois o seu modelo pedagógico, a sua visão do processo de aprendizado é sustentada exatamente por esse tripé:
interatividade, comunidade e informalidade.
Em 1996, Freire publicou o livro
Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa (Ed. Paz e Terra). Segundo a especialista Claudilene Sena
de Oliveira Kerber, Paulo Freire enfatiza a necessidade de respeito ao conhecimento que o aluno traz para a escola.
Nessa frase curta está a semente
de uma grande transformação, se professores, alunos, instituições de ensino, empresas e governos conseguirem antes transforma
as suas regras, as suas hierarquias, os sues mecanismos de controle.
Mas é justamente nisso que reside
o caráter revolucionárioda obra de Freire. Pois ele não está dizendo que esta ou aquela ferramenta vai criar um novo tipo
de educação. Ele insiste numa idéia muito mais difícil de realizar : a de que somente a transformação nas relações de poder
entre quem ensina e quem aprende será possível criar uma interatividade ( ou seja, diálogo) autêntico.
Se tal nível de diálogo entre iguais
for alcançado, então a interatividade será a base para a criação de uma comunidade.
Máquinas + Humanidade = Ética
Em outras palavras, estará em jogo
a criação de uma comunidade onde ocorre não a transmissão de conhecimento, mas a produção compartilhada, coletiva, prática
de conhecimento.
É o que os teóricos e estrategistas
mais recentes no campo da administração de empresas e organizações denominam comunidade de prática. Somente nesse ambiente,
onde a confiança é crucial, pode o conhecimento florescer, sobretudo como resultado informal, ou seja, não necessariamente
codificado, registrado, medido e controlado de um processo em que todos os participantes estão não apenas aprendendo e ensinando
ao mesmo tempo, mas participando de uma transformação social e política de que a escola é apenas parte.
Obviamente, os computadores, a Internet,
a televisão digital e outras potentes ferramentas tecnológicas podem até mesmo facilitar essa transformação, mas estão longe
de garantir que ela ocorra.
Se ela não ocorrer, os indivíduos
que usam essas máquinas serão apenas escravos delas, dados numa planilha de marketing estratégico, usuários de um sistema
controlado com finalidades duvidosas e pouco transparentes, personagens de sociedades parecidas com os piores cenários já
imaginados pela ficção, à la 1984.
Com a palavra Paulo Freire : não
podemos nos assumir como sujeitos da procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos históricos, transformadores,
a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos(...) É por esta ética inseparável da prática educativa, não importa se trabalhamos
com crianças, jovens ou com adultos, que devemos lutar.